Abelha Iratim dá nome à cidade
09/09/2007 - 09:28:13Ela é minúscula e parece inofensiva, não fosse o fato de, à primeira vista, lembrar aquelas abelhas que se enroscam no cabelo. A colméia é igualmente estranha, pois remete à estrutura de uma raiz e o cheiro do mel parece com o aroma de limão. A Lestrimelitta limão é a abelha que possui o mesmo nome da cidade que em 2007 faz 100 anos: Iratim. Em outros estados, é conhecida como arancim, iraxim, abelha limão, limão ou limão canudo.
A Iratim distribui-se por todo o Brasil e não está ameaçada de extinção. É uma abelha silvestre, ou seja, seu ambiente é a mata. “As melíponas são abelhas nativas que co-evoluíram com nossas florestas. Precisamos das meliponicultoras para conservar as matas e polinizar as plantas. Estas abelhas são responsáveis por mais de 90% da polinização das florestas”, explica o técnico florestal Sérgio Adão Filipaki.

Apesar do cheiro de limão, curiosamente, a Iratim não produz mel de qualidade e é considerado tóxico para o consumo humano. “Ela não é criada como produtora de mel. Quem tem ela em criatório é mais para conservação da espécie”, conta Sérgio. “Ela se distribui na natureza conforme a disponibilidade de alimento”, acrescenta.
Outro aspecto interessante é o fato desta abelha fazer a pilhagem de colméias de outras espécies. “A Iratim se caracteriza por ser cleptoparasita, possui o hábito de saquear o alimento (néctar e pólen) de outras colônias de abelhas”, diz o estudo “Abelha Iratim (Lestrimelitta limao Smith: Apidae, Meliponinae), realmente é danosa às populações de abelhas? Necessita ser eliminada?”, produzido pelos pesquisadores Weyder Cristiano Santana, Geusa Simone de Freitas, Ivan Paulo Aksatsu e Ademilson Espencer Egea Soares, do Departamento de Biologia e do Departamento de Genética da USP.
Embora seu alimento esteja nas outras colméias, os pesquisadores concluíram através do estudo que a Iratim não constitui uma ameaça às demais espécies. “Muitos ninhos foram atacados, mas não foram destruídos, indicando que estas abelhas não são prejudiciais como lhes é atribuído. Este argumento tem sido utilizado por meliponicultores que sistematicamente efetuam a extinção dos ninhos encontrados.
L. limao (iratim) não destrói o ninho hospedeiro em condições naturais no primeiro ataque, mas quando este está muito fraco, ou seja, poucos indivíduos e cria, comum após o terceiro ou quarto ataque sucessivo, caso estas não se recuperem, as colônias podem ser destruídas. O mesmo pode acontecer com abelhas criadas em caixas racionais, devido à falta de manejo adequado e ao estado geral da colônia não ser o ideal, semelhante a uma colônia em condição natural, pois a mesma está submetida à constante stress”, diz o artigo dos pesquisadores.
Para atacar outras colônias, a Iratim utiliza feromônios e constrói uma lamela de cerume. O comportamento agressivo com as abelhas evita a entrada das “donas da colméia”. As operárias da “abelha limão” dão continuidade ao ataque durante a noite. De manhã, outras operárias da invasora apoderam-se da colônia. Em condições naturais, é possível que a Iratim conviva com outras espécies. “A densidade dos ninhos de L. limao (iratim) está em equilíbrio com a população das outras abelhas. Não necessitando, assim, de serem exterminadas”, aponta o estudo dos pesquisadores da USP.
A Iratim não é agressiva em comparação com abelhas de outra família, a Apis, da qual fazem parte as abelhas africanas e européias, que foram introduzidas no Brasil. “A Abelha Africana ficou conhecida por este aspecto ‘agressivo’ pelo fato de ter desenvolvido muito bem o sistema de defesa de sua colméia. Ela consegue inocular veneno com o ferrão. Por isso, quando você mexe com ela, a resposta é imediata. Por outro lado, as melíponas possuem o ferrão atrofiado. A defesa delas é enrolar no cabelo e, às vezes, dão umas mordidinhas bem leves. Deixam também uma resina grudenta. Mas não conseguem inocular veneno”, explica Sérgio Filipaki. Outro dado interessante é o fato de a Iratim exalar um cheiro de capim-limão quando esmagada.
A colméia irregular da abelha-limão possui a estrutura semelhante à de uma raiz. É comum encontrá-la em troncos de árvores e suspensas em outras estruturas. “Às vezes fica tão camuflada que fica até mesmo no chão”, diz o técnico florestal. Que o digam Pacífico de Souza Borges e Cipriano Francisco Ferraz que, ao chegarem à região, após abandonarem o rio Assunguizinho e adentrar a mata encontraram uma abelheira com três bocas, uma num tronco e duas no chão. O local, atualmente Vila São João, foi batizado de Irati, numa referência às abelhas e hoje dá nome ao município que completa 100 anos de emancipação política.
Fonte: Jornal Hoje Centro Sul